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         A palavra da moda é empreendedorismo e, como toda moda, a gente acha que todo mundo deve seguir. Sim, no começo você fica tão empolgado com a ideia, assiste a tantos vídeos de grandes nomes no ramo, lê muitos livros falando de pai rico e pai pobre e virando a mesa, passa pelo lance de quem mexeu no seu queijo e as intermináveis biografias de A a Steve Jobs.

Quer convencer todo mundo de que deve largar o emprego CLT e seguir sonhando nessa empreitada: – “Olha aqui essa sacada!” e lá vai mais um áudio para o grupo de amigos no Whatsapp.

         E toda essa empolgação é fundamentada em muita pesquisa, pois esse texto pretende falar, sobretudo, com o professor empreendedor, mais especificamente, o professor de idiomas (sou teacher e sei que somos um bicho que pesquisa!). Talvez sejamos o perfil mais desconfiado nesse meio do empreendedorismo e isso é fácil de explicar: talvez sejamos também os profissionais mais apaixonados e quem ama, desconfia.

         E por amar demais nossa área, mergulhamos. E mergulhamos fundo. E tomamos muito cuidado, porque nosso “produto” não é acabado, não pode ser embalado para produção em série, igualzinho, com lindas etiquetas vermelhas e laços azuis, com os dizeres “servimos bem para servir sempre”. Ok, até pode, mas já fizemos isso antes, lembra? Não estávamos felizes e por isso pulamos fora, lembra? Nosso produto também depende de quem o compra para ter algum sucesso. Aquele modelo encaixotado das escolas não nos atendia mais e devo fazer aqui uma observação, já desconstruindo a ideia inicial desse texto, a de que todo mundo deveria empreender: não, não deveria. E está tudo bem com isso. Talvez os colegas que trabalhem como funcionários tenham até mais “jogo de cintura” no trato social do que quem decide ser autônomo e sejam mais disciplinados ao aplicar o método proposto pela empresa que os contratou. Já fiz essa autoanálise profissional. Então, está tudo bem trabalhar com “carteira assinada”.

         E é essa palavra – AUTOANÁLISE – que se tornou minha key word nesse processo desde 2013, quando resolvi empreender. Só agora, há pouco tempo, que percebi que, quando você deixa o que conhecia e o que era seguro (até 2ª ordem…) para se jogar, literalmente falando, numa empreitada solitária, você deve olhar muito mais pra si mesmo do que pra fora. Sim, há modelos, há fórmulas, há pessoas te ajudando a enxergar mais longe, há livros, há redes de apoio, há um mundo de conhecimento que faz muita diferença e que não deve ser descartado, mas nada fará muito efeito se você não descobrir, dentro de você, o que você quer, o que não quer, o que tem a oferecer e que significado dar a seu trabalho dentro do que você reconhece como sendo uma vida de qualidade (e aqui deixo claro que são valores muito subjetivos e intransferíveis, cada um tem seu modelo de vida feliz).

         Há uma certa dificuldade inegável quando falamos de “olhar para dentro de si e buscar o modelo que se quer seguir” já que não fomos treinados para isso. A todo momento, desde crianças, nos dão cópias, cronogramas e programações que devemos executar, sem pensar muito, sem avaliar se vale a pena, obediência plena sem pestanejar ou questionar. Quem, como eu, já trabalhou anos em escolas tradicionais, sabe do que estou falando.

         E aí, um belo dia, decidimos que vamos trabalhar sozinhos, fazer do nosso jeito e no nosso ritmo e PÁ! O mundo cai em nossas costas e não temos mais modelos. Você pode seguir o que um outro colega faz, o que o bam bam bam do empreendedorismo faz, o que a reza do Papa fala pra fazer e, ainda assim, não dá certo. É preciso se autoconhecer para não se frustrar quando as coisas não saírem como você esperava e isso não é papo de hippie.

         Se eu puder ajudar um pouco com meus tropeços até agora, eu diria que, nesse momento da minha vida de autônoma, entendo que há três fases pela quais passamos ao empreender e pular uma delas é como jogar banco imobiliário e voltar 5 casas, toda vez que você está prestes a dar o pulo do gato.

         O que você vai ler a seguir não é uma fórmula (mais uma!), mas tão somente o resumo do meu diário de bordo, que faço toda semana desde que decidi empreender.

 

 

1ª Fase do jogo: saber o que você não quer

 

         Muito mais importante do que saber o que você quer e onde quer chegar é saber o que você não quer. Fazer um mergulho interior toda vez que alguma situação profissional te incomodar. É ali que você deve trabalhar, é nesse ponto que você deve agir. Tenho um exemplo prático: como pessoa de “humanas”, nunca fui muito afeita aos números e administrar certas situações como cobranças e balanços da empresa. Para mim, eram intermináveis horas de tortura depois do expediente. Também não tinha como contratar alguém para gerenciar isso para mim. Chorar cada vez que não conseguia lidar com determinada situação foi ficando chato, na medida em que não resolvia nada.

         Foi aí que busquei cursos, sessões de coaching, me aperfeiçoei e, quando faltava tempo e dinheiro para investir, pesquisei com colegas de profissão e extraí de cada um algum modus operandi e, a partir de tudo, moldei o meu modo de trabalhar. Você não precisa copiar ninguém, mas pode se inspirar e modelar o seu negócio. Separei o que eu queria e o que eu não queria na rotina de trabalho. Lidar de frente com o que não sabemos, reconhecendo que precisamos de ajuda e que não temos que ser perfeitos em todas as situações traz um grande alívio. Até porque é normal nos pressionarmos, a família, os amigos e o mundo todo para que “tudo dê certo”, afinal, foi você quem decidiu pular fora do sistema. 

 

 

2ª Fase: Fazer o melhor com o que você tem

 

         Depois que você aceita que nem tudo vai sair redondinho, você para de esperar as condições favoráveis para fazer o que precisa ser feito. Você começa a fazer o melhor com o que você tem no momento. No início, eu sempre esperava o momento certo para me expor na internet, esperava ter mais recurso para comprar um novo equipamento para minha sala de aula, esperava ser mais conhecida em minha cidade para fazer uma hora/aula melhor, esperava isso, esperava aquilo… e nada era feito. A não ação em determinadas situações é pior do que tentar e errar, porque com o erro se aprende e isso não é clichê. Eu não falo mais em “erros”, mas sim oportunidades de melhoria.

         Uma vez anunciei num grupo de vagas de emprego no Facebook aqui da minha cidade, panfletei, fiz propaganda, ofereci aulas demonstrativas gratuitas, trabalhei por 15 dias ininterruptos, não tive hora para dormir, nem me alimentar e de muitas horas de aula, tive pouco retorno em matrícula. Depois de muito me culpar e me frustrar, entendi que mirei no nicho errado. Olhando por outro ângulo, minha pesquisa sobre aulas online foi muito intensa (eu estava objetivando passar das aulas presenciais para as aulas online). Eu nunca havia dado aula online antes e nesses 15 dias treinei tanto, dando uma aula após a outra, tendo que resolver problemas técnicos, testando outras plataformas e “me virando” para entender como tudo funcionava, que acabei vendo isso como um treinamento forçado, não um fracasso. Mas eu vi isso assim, logo de cara? No, my friend. Só depois de muito tempo e muita reflexão.

 

 

3ª Fase: Lidar com os copos quebrados

 

         E no fim do dia, ao contabilizar os altos e baixos, já saiba que nessa caminhada nada é fixo nem permanente. Cada dia é uma rotina já conhecida, mas com brincadeiras diferentes. É como se acessássemos nossa memória infantil de quando acordávamos de manhã, olhávamos para o baú de brinquedos e dizíamos: “do que vou brincar hoje?”.

         Se houve altos, você se parabeniza pelo good job e se algo não foi tão bom assim, você também se trata com a gentileza de quem tentou por hoje e amanhã tentará de novo, porque ninguém deve ser mais gentil com você do que você mesmo.

         Você é seu guia agora e foi por um caminho não tão satisfatório hoje: volte uma casa e descanse. Faça uma pausa, avalie e de novo, acesse o seu objetivo maior, o por que de você estar fazendo isso tudo. Há outras maneiras? Você conhece atalhos? ‘Bora perguntar!’ –  criança aprendendo a brincar pergunta o tempo todo. E não leve o termo “brincar” de forma pejorativa: é a fase mais importante na formação de quem somos.

         Lembro agora de uma história budista que diz que num mosteiro no Japão, era tradição dar um copo de cristal para que cada mestre tomasse sua água em seus aposentos. Um dia, a monja encarregada da limpeza do quarto do mestre deixa cair o copo e o quebra em minúsculos pedacinhos. Ela se desespera, recolhe os caquinhos e vai falar com o mestre. Ela diz: “mestre, perdoe-me, mas derrubei e quebrei seu copo de cristal, estou pronta para receber a punição por esse meu descuido” ao que o mestre responde sorridente: “Que bom! Agora terei um copo novo!”

         Nosso caminho é justamente esse: sobre como lidar com os copos quebrados ao final do dia. Podemos nos desesperar e achar que tudo está acabado e que seremos então punidos, ou podemos ter a certeza de que o que não saiu como deveria, deu espaço a uma ideia nova para ser colocada em prática. Agora, avance 5 casas.

Carol Lourenço

Carol Lourenço

Formada na FFLCH – USP Português/Inglês em 2001 e com 16 anos lecionando inglês, português e literaturas, Carol Lourenço atualmente é coach em idiomas e professora de inglês online full time.

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