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Professor, você já deve ter ouvido muito falar sobre cheque especial, né? Alguns de vocês já devem ter entrado nele e uns outros nesse momento devem estar pagando os juros. Mas… você sabe como ele funciona, exatamente quanto ele cobra e que a melhor coisa a se fazer é ficar o mais longe dele possível?

Olha aquela luzinha laranja lá longe. É essa a distância que você precisa ficar do cheque especial

Em linhas gerais, o cheque especial é um empréstimo que o banco te faz. Como todo empréstimo, ele cobra juros. Existem alguns problemas nesse processo. Veja só: quando você quer fazer um empréstimo é tudo muito burocrático, pedem mil documentos, exigem verificação de crédito e tantas outras coisas com o intuito de se ter uma garantia que você irá pagar sua dívida. Enquanto as coisas funcionam assim com um empréstimo comum, no cheque especial basta que você use mais dinheiro do que possui em seu saldo e pronto, você entrou no cheque especial. Sem falar com ninguém. Sem um alerta indicando que você está prestes a contrair um empréstimo. Em vários bancos, a tela de saque nem mesmo deixa você ver seu saldo. Simples e direto. O cheque especial nem quer saber quem você é ou o que você tem. Se isso soa como relacionamento abusivo, é porque é. Se é tão difícil uma instituição fazer um empréstimo, por que é tão fácil obter um empréstimo pelo cheque especial? A resposta para isso é simples e ao mesmo tempo absurda: uma taxa de juros alta, completamente fora da realidade. Normalmente, ao se fazer um empréstimo, pagamos cerca de 3% (sendo otimistas) ao mês em juros. Isso quer dizer que vamos colocar um prazo para pagar e quanto maior for esse prazo, mais teremos que pagar devido a esses juros sendo cobrados mês a mês. No cheque especial, em 2017, a média que encontramos no Brasil é de 12% (também sendo otimista) ao mês. Talvez falando assim em números sem mostrar exemplos não fique claro o quanto isso é absurdo, mas vamos olhar para alguns gráficos.

A dívida de 1000 reais virou 33.000

No caso 1, se fôssemos pagar a dívida em 10 anos, R$ 1000,00 teria se tornado R$ 33.333,00. Se a pagássemos em 2 anos, ela passaria a ser R$ 2016,00. É um valor alto, mas possível de se pagar. Porém, no caso 2, a dívida se tornou absurdos R$ 4.061.203.764,00 em 10 anos. Sim, 4 bilhões! QUATRO BILHÕES. Veja como é difícil até mesmo ler o gráfico:

Parece que o gráfico deu errado, mas é isso aí mesmo

Para se ter uma ideia, a cidade de Barretos tem um PIB menor que 4 bilhões. Se reduzirmos para apenas 2 anos, a dívida seria de R$ 20.976,00. Ainda absurdamente alta e muito provavelmente fora da possibilidade de ser paga. E o que isso tudo quer dizer? Ou melhor, o que eu, professor, posso fazer com isso? Bom, a primeira e mais importante recomendação sempre vai ser evitar o cheque especial a todo custo. Sempre que isso não for possível, precisamos sentar com calma e traçar um panorama em todas as nossas contas. Concorda comigo que qualquer economia que você tenha não vai valer a pena se em 2 anos 1.000 reais se transformam em uma dívida de 20.000? Por isso, a primeira solução para não deixar o cheque especial acabar com nosso dinheiro é usar a poupança para cobrir a dívida o mais rápido possível. Por que sacrificar a coitada da poupança que quase não rende nada? Justamente por ela não render quase nada. Hoje a poupança rende 5,5% ao ano. Em 2 anos, se você deixar lá 1.000 reais, você vai ter 1.113 reais. Por isso vale a pena deixar de ganhar esses 113 reais para evitar perder 19.000. Na verdade, não existe nada, desde opções de poupar até de investir pesado, que renda tanto quanto o cheque especial (mas ele só rende para o banco). Por isso, caso você deixe ele crescer em sua conta, inevitavelmente perderá dinheiro. Em segundo lugar, devemos ter nossas contas em dia, muito bem controladas em planilhas. No futuro, vou comentar sobre aluguel e outras contas que podemos negociar e baixar o valor. Isso já dá um alívio enorme quando pensamos em meses e anos. Uma história que sempre conto é que ao abrir o MEI, na época sem conhecer bem questões de contabilidade e todos esses detalhezinhos, eu não sabia como era simples pagar e fazer o controle. Por isso, o escritório que resolveu a burocracia se ofereceu para manter minha conta. Aceitei e ele passou a me cobrar 100 reais por mês. Quando eu descobri o quanto era simples, retirei do escritório e comecei a cuidar disso por conta própria. Imagine que consegui economizar 100 reais por mês. Em 1 ano, essa economia vai para 1.200 reais. Como continuo com o MEI, a cada ano que passa são mais 1.200 reais economizados. Caso contrário, essa conta estaria silenciosamente removendo parte do meu dinheiro. Assim, é importante ter as planilhas detalhadas para identificar todos os nossos custos. NetFlix + TV a cabo, precisa mesmo das duas? Quanto está sendo gasto de energia e água? Será que as rotas usadas ao andar de carro são as melhores ou daria para fazer trajetos mais curtos ou ir em mais lugares de uma só vez? Todos esses custos vão se somando de pouco em pouco e nossa percepção dificilmente os enxerga de maneira que seja fácil lidar com cada um e obter o melhor resultado possível em nossas finanças. Por isso é importante compreender cada vez melhor como nossas finanças funcionam, pois elas possuem saúde e essa saúde precisa ser mantida. Em terceiro lugar, é possível renegociar dívidas para obter valores possíveis de serem pagos. Vamos pensar como o banco: é melhor ter clientes com dívidas colossais que não podem ser paga ou dívidas menores, mas que ainda assim serão pagas? A negociação diretamente com o banco não é fácil, mas é possível acionar o Procon para fazer a renegociação. Basta procurar uma unidade do órgão e levar a documentação da dívida. De resto, eles mesmos orientam e cuidam da situação. Mais informações aqui.

Regularize suas contas. Sempre lembre que de nada adiantar guardar dinheiro se ao mesmo tempo tivermos uma dívida crescente

Por fim, um exercício de absurdo aqui: se apenas 1 real ficar como dívida em cheque especial e ficar lá por 20 anos, essa dívida passará a ser de R$ 16.493.376.013.799,90, ou seja, 16 quatrilhões de reais. Sabe o que dava para comprar com esse dinheiro? A soma de todos os bens de empresas e serviços do Brasil, valor medido pelo PIB, é de cerca de 5,5 trilhões. Se a gente somar toda a economia do Brasil, não daria para pagar quase nada dessa dívida. Mais alguns artigos sobre o tema podem ser lidos aqui e aqui. Daria para comprar alguns Brasis com sua dívida que começou em 1 real. Em notas de 100, pesaria 41 mil toneladas.

Ao invés de ter um officeboy para pagar as contas, seria necessário uma retro-escavadeira como essa aí

Carlos Nascimento

Carlos Nascimento

Formado em Letras e mestrado em Linguística pela UNESP e atua como professor de inglês há mais de 10 anos. Com a experiência de administrar uma escola e por ter uma formação também em Administração, hoje estuda com muito mais afinco questões econômicas e financeiras que envolvem o mundo do professor particular.

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